Quem está acompanhando o ciclo de palestras sobre Cuidados Paliativos da Semana Teológica, concordaria em afirmar que a palestra da terceira noite, ministrada pela psicóloga Drª Érika Arantes de Oliveira, pode não ter sido a mais esclarecedora sobre o que é cuidados paliativos, mas foi definitivamente a mais profunda em análise das experiências que um profissional deste grupo enfrenta constantemente.
Lidar com pessoas que estão muitas vezes “lutando contra a morte” é exaustivo não somente para a família, mas para toda a equipe médica envolvida. É desse tipo de experiência que a psicóloga compartilhou durante a noite do dia 31. Expondo casos, que ela “viveu”, junto com cada família e interno. Érika que trabalha com pacientes de TMO (transplante de medula óssea) no HCRP (Hospital das Clínicas em Ribeirão Preto) já há dez anos, falou sobre a dificuldade de um médico em encarar a “derrota para a morte”, quando perde um paciente, e, o cuidado que é necessário, para não se envolver demais, ou de menos em casos assim.
Como psicóloga Érika acompanha não só o paciente, mas os familiares também, e nos trouxe muitas histórias de como essa relação de confiança e vínculo entre o profissional e o paciente, além de sua família, ajudou para que a pessoa entendesse melhor sua situação, e pudesse muitas vezes morrer em paz. A doutora faz uma comparação entre a vida daqueles que estão morrendo e uma ata sendo escrita, a qual a pessoa somente parte quando sente que já escreveu tudo o que era necessário, e que ela de certa forma, trabalhando ali ao lado desses pacientes, ajudou também a escrever. Também disse que parte do processo para confortar e acolher é lembrar sempre que ainda há vida durante o tratamento, “é importante o paciente entender que ele precisa viver o hoje, um dia de cada vez”, disse Érika.
Os inúmeros casos compartilhados por Érika traz a lembrança, algo que foi dito pela Drª Marysia no primeiro dia de palestra. “Não que sejamos melhores do que os outros, mas não é qualquer um que pode fazer Cuidados Paliativos”. Esta idéia de Marysia fica muito clara quando vemos tamanho envolvimento emocional de um profissional que lida com pacientes em estado terminal todos os dias. Érika disse que, onde ela trabalha, chega a ter 50% de óbito dos pacientes ali internados. Realmente, não por arrogância, mas não é qualquer pessoa que pode trabalhar neste contexto. Por melhores que sejam as intenções, com uma palavra ou atitude errada, toda a confiança e conscientização que vem sendo construída com o paciente, se perde, e aquele trabalho, de uma morte digna e confortável pensada pela equipe de Cuidados Paliativos, deixa de acontecer.
Érika compartilhou ainda que, as pessoas passam quase em unanimidade, por estágios comuns, quando se encontram diante de uma doença terminal. Um primeiro momento de negação, depois de raiva direcionada aos médicos, por não poderem ajudar, depois a família, depois de Deus, e por fim começam uma barganha com Deus, esperando ter outra chance para a vida. Essa situação é muito importante, para os olhos atentos daqueles que estão a serviço de Deus na capelania, pois neste momento é importante trazer luz a essa pessoa, para que ela tenha a visão da morte como uma continuidade daquilo que Deus preparou para nós, e possa enxergar na morte a oportunidade da verdadeira paz e o fim de todo o seu sofrimento.
Entrando nesse assunto, fica o convite para a palestra de encerramento, amanhã. O tema, que será ministrado pelo Pr. Moisés Alves dos Santos, é: Esperança em Pacientes em Final de Vida. E trará em debate o campo que Cuidados Paliativos pode ser para missões, o pastor Moisés tem muito a compartilhar já que é missionário na área de capelania pela CBESP. Compareça, amanhã encerraremos a Semana Teológica. Lembrando que, diferente de hoje, o encontro volta para o Teatro do Colégio Metodista, na rua Lafaiete, 695, no Centro em Ribeirão Preto.
Lorena Marcatto Nunes - Bacharel em Jornalismo pela PUC Campinas
Colaboradora do SEBANOP